Myrmecophaga tridactyla Linnaeus


Nomenclatura e Classificação

Nome Científico

Myrmecophaga tridactyla

Autoria

Linnaeus

Nome Comum

tamanduá-bandeira,  papa-formigas,  tamanduá-açú (Superina & Aguiar 2006); Jurumi ou jurumim,  bandeira e bandurra (A. Bertassoni,  comunicação pessoal).

Descrição Taxonômica

É facilmente reconhecido por seu tamanho, pela coloração distintiva da pelagem, com uma faixa diagonal preta de bordas brancas, pelo focinho longo e cilíndrico e cauda grande, com pelos grossos e compridos (Nowak & Paradiso 1983, Eisenberg & Redford 1999). Os membros anteriores são fortemente musculosos e possuem quatro dedos todos com garras, sendo as do segundo e terceiro dedos as maiores. Os membros posteriores apresentam cinco dedos com unhas curtas (Silva 1994). Três subespécies são reconhecidas por Gardner (2007). Massa em adultos: Média de 31,5kg (variando entre 25,9 e 36kg, N=7; Silva 2004), podendo chegar até mais de 45kg (Silveira citado em Medri et al. 2011). Comprimento total: É usualmente de 1 a 1,2m (Nowak 1999). Segundo Miranda (2004), média de 1,20m (variando entre 1,08 e 1,33m, n = 7). Comprimento de cauda: Varia entre 65 e 90cm (Nowak 1999). Segundo Miranda (2004), média de 67cm (n = 7). Altura da orelha: 4,67 ± 0,47cm (3,5-5,0cm) (Wetzel 1985). Segundo Miranda (2004), média de 46,5mm (n = 18). 


História Natural

Forma de Vida

Vida Livre Individual

Alimentação

Sua alimentação é constituída principalmente por formigas e cupins (Drumond 1992, Medri et al. 2003, Rodrigues et al. 2008, Braga 2010). Entretanto, há registro do consumo de larvas e adultos de besouros (Silveira citado em Medri et al. 2011, p.100), de abelhas, e provavelmente mel (Miranda 2004). 

Comportamento

A espécie tem hábito terrestre e é solitária com exceção da mãe com seu filhote, durante o período de amamentação, e da época de reprodução, quando podem ser formados casais. Podem ter atividade ao longo do dia e da noite, dependendo da temperatura e da chuva (Eisenberg & Redford 1999, Camilo-Alves & Mourão 2006).  A espécie é considerada boa nadadora. Nos Campos Lavrados de Roraima foi registrado um tamanduá-bandeira em cima de uma árvore (L.S.M. Macedo, comunicação pessoal). Kreutz (2007) registrou tamanduás-bandeira efetuando marcações em troncos de árvores (arranhões), indicando que esse tipo de marcação pode ser resultado de uma maior competição intraespecífica resultante de um elevado nível de estresse em áreas de plantio da Acacia sp.. Braga (2010) também avaliou esse tipo de comportamento, sugerindo que o mesmo possa ser utilizado para comunicação entre coespecíficos, relacionado ou não ao período de acasalamento, ou ainda ao nível de estresse ao qual estão submetidos os indivíduos em áreas de plantios de Pinus sp.. A referida autora salienta a importância da avaliação correta dessas hipóteses.

Reprodução

O intervalo entre os nascimentos pode atingir nove meses (Eisenberg & Redford 1999). O período de gestação descrito para a espécie é em média de 183 a 190 dias. Esta espécie tem um filhote por gestação, embora já tenha nascidos gêmeos em cativeiro. A mãe carrega o filhote no dorso por cerca de seis a nove meses (Eisenberg & Redford 1999) e este, quando mais crescido, pode descer do dorso da mãe para forragear formigas e cupins, ficando com a mãe até a próxima gravidez. A espécie atinge a maturidade sexual entre os 2,5 e 4 anos de idade (Nowak 1999).


Habitat e Distribuição

Distribuição Geográfica (Estados)

TO BA SE PE AL RN CE PI MA AP PA RR AM AC RO MT MS GO PR SC RS SP MG RJ ES DF PB

Endemismo

A espécie não é endêmica ao Brasil, ocorrendo também em Honduras, El Salvador, Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador (leste do Andes), Venezuela, Guianas (Guiana, Suriname, Guiana Francesa), Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina. 

Habitat/Substrato

TERRESTRE


Demografia

"Não há informações com relação à abundância de indivíduos. Embora esta espécie em alguns locais seja comum, como em Lavrados de Roraima (G.M. Mourão, dados não publicados), a espécie possui informações de densidade somente para os biomas Pantanal e Cerrado. Estimativas de densidade ou de tamanho da população existentes: Em Cerrado do PARNA das Emas, Miranda et al. (2006) estimaram a densidade de tamanduás-bandeira em 0,2 indiv./km2 usando transectos aéreos e 0,004 indiv./km2 usando transectos lineares terrestres. Ainda no PARNA das Emas, Silveira et al. (1999) obtiveram uma densidade de 0,63 indiv./ha, através de amostragem de distâncias (distance sampling) de tamanduás mortos em queimada que atingiu 100% do parque em 1994. Após este evento de fogo, Silveira et al. (1999) estimaram uma densidade de até 0,00085 indivíduos/ha. A densidade desta espécie estimada para o Cerrado da Serra da Canastra foi de 1,3 tamanduás/km2 pelo método de captura-recaptura (Shaw et al. 1987), 1-2 indivíduos/km2 pelo método de contagem tempo/área e 0,17-1,31 indiv./km2 usando contagem por estradas (transectos) (Shaw et al. 1985). Para o Pantanal, Coutinho et al. (1997), estimaram uma densidade de 0,035 indivíduos/km2 através de levantamentos aéreos; e Desbiez & Medri (2010) uma densidade de 0,15 indivíduos/km2 através de transectos lineares. As populações do Cerrado e Mata Atlântica podem estar sofrendo com a fragmentação nestes biomas.
Embora relativamente estável no Pantanal e Amazônia, no Cerrado a população da espécie deve estar sendo drasticamente reduzida em função do desmatamento continuado decorrente da conversão de hábitats para a agricultura e ampliação da infraestrutura (por exemplo, construção de reservatórios de hidrelétricas e linhas de transmissão). Myrmecophaga tridactyla necessita de áreas florestadas e quando há a supressão total desta vegetação, esta espécie desaparece da região afetada.Esta espécie está quase extinta na Mata Atlântica e possivelmente extinta no Pampa, embora ainda seja possível sua ocorrência neste bioma. Além disto, considerando a perda ocorrida e contínua do Cerrado, 49,1% nos últimos 50 anos, bioma que provavelmente abriga a maior fração da população da espécie, o avanço do arco do desmatamento no bioma amazônico e perda de 88% do bioma Mata Atlântica (IBGE 2012)
Suspeita-se que exista aporte de indivíduos de fora do Brasil, entretanto não há informações sobre a contribuição relativa de populações estrangeiras para a manutenção das populações nacionais. Além disto, existem evidências de aumento nos níveis de ameaça fora do Brasil, uma vez que a espécie parece estar extinta em Belize e Guatemala, é considerada extinta também no Uruguai, e está provavelmente extinta na Costa Rica (Fallabrino & Castiñeira 2006, Superina et al. 2010)."


Ameaças

Fatores de Ameaça

As principais ameaças identificadas para o táxon foram: incêndio, agricultura, pecuária, desmatamento, aumento da matriz rodoviária, desconexão de hábitat e redução de hábitat. Outras ameaças secundárias ou regionais são: caça, perseguição, envenenamento indireto por inseticidas aplicados para o controle de formigas e cupins em áreas de plantios e de pecuária (Braga 2010, A. Bertassoni, comunicação pessoal) e enfermidades infecciosas reprodutivas. A deterioração e redução de hábitats são apontadas como as principais causas de declínio das populações de tamanduá-bandeira (Fonseca et al. 1994, Collevatti et al. 2007). Em regiões onde temperaturas atingem valores fora da variação de 15 a 36ºC (McNab 1985), a espécie necessita da disponibilidade de hábitats arbóreos para proteger-se do calor ou do frio excessivo (Camilo-Alves & Mourão 2006). Outros fatores que contribuem para a rarefação das populações desta espécie são a caça (Leeuwenberg 1997, Peres 2000), o fogo (Silveira et al. 1999) e os atropelamentos rodoviários (Fischer 1997). Segundo a "Lista de Referência da Fauna Ameaçada de Extinção no Rio Grande do Sul" (Marques et al. 2002), o tamanduá-bandeira, avaliado como Criticamente Ameaçado neste estado, tem como principais ameaças a expansão da agricultura, fogo, perseguição e atropelamentos rodoviários. O "Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná" (Mikich & Bérnils 2004) inclui, além destas ameaças, a caça e cães domésticos, ameaças também citadas no Plano de Conservação para tamanduá-bandeira no Paraná (Braga 2009). Miranda (2008) relatou que por se tratar de uma espécie que possui baixo potencial reprodutivo, apresenta cuidado parental prolongado, longos períodos de gestação e somente uma cria por ano, patógenos que possam afetar o sucesso reprodutivo, podem ser extremamente nocivos para populações de tamanduás-bandeira em vida livre.


Usos, Manejo e Conservação

Presença em Unidades de Conservação

A espécie está presente nas Florestas Nacionais (FLONA) de Saracá-Taquera (Oliveira et al. 2006), de Caxiuanã (Martins et al. 2007) e Tapajós (S.M. Vaz, dados não publicados), Reserva Biológica (REBIO) do Rio Trombetas (IBAMA 2004), Reserva Extrativista (RESEX) Tapajós-Arapiuns (Peres et al. 2003) e Parque Nacional (PARNA) da Amazônia (George et al. 1988) no Pará; Estação Ecológica (ESEC) Juami-Japurá (F. R. Miranda, dados não publicados), FLONA do Purus (ICMBio 2009, F.R. Miranda, dados não publicados), REBIO de Uatumã (Cabral et al. 2008), RESEX Arapixi (ICMBio 2010) e PARNA do Jaú (Iwanaga 2004) no Amazonas; PARNA Serra do Divisor (Calouro 1999) no Acre; PARNA do Viruá (Oliveira et al. 2009) e ESEC de Maracá (Barnett & Cunha 1998) em Roraima; Parque Estadual (PE) do Araguaia (SEMA, 2007b), PARNA do Araguaia (MMA 2001) e PE do Cantão (Ribeiro et al. 2004, Zimbres 2010) em Tocantins; ESEC Serra Geral do Tocantins, entre Tocantins e Bahia (Carmignotto & Aires 2011); PARNA do Cabo Orange, ESEC do Jari, ESEC de Maracá-Jipioca (Medri & Mourão 2008), PARNA Montanhas do Tumucumaque (Silva 2008) no Amapá; PARNA da Chapada Diamantina (Medri& Mourão 2008) na Bahia; PARNA da Chapada dos Guimarães, PARNA do Pantanal Mato-grossense (Medri & Mourão 2008), Reserva Biológica Municipal Mario Viana (Rocha & Dalponte 2006), Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Estância Ecológica SESC-Pantanal (Medri & Mourão 2008), ESEC Serra das Araras (Santo-Filho & Silva 2002), Terra Indígena (TI) Xavantes do Rio das Mortes (vila Etinhiritipá, Leeuwenberg 1997), TI Parabubure (Rocha & Silva 2009) e Parque Estadual do Cristalino (Rocha 2010) no Mato Grosso; RPPN Engenheiro Eliezer Batista (V. Garcia, comunicação pessoal), RPPN Dona Aracy (A. Bertassoni, comunicação pessoal), PARNA da Serra da Bodoquena (Cáceres et al. 2007) no Mato Grosso do Sul; RPPN da Fazenda Rio Negro (Medri & Mourão 2008); PARNA da Chapada dos Veadeiros (Oliveira 2010), PARNA das Emas (Rodrigues et al. 2002, Sanderson & Silveira 2003), PARNA do Encantado (Zimbres 2010) em Goiás; PARNA de Brasília, "Reserva Ecológica" do IBGE e ESEC de Águas Emendadas (Juarez 2008, Oliveira 2010) no Distrito Federal; PARNA Grande Sertão Veredas (Oliveira 2010), PARNA das Sempre-Vivas (Medri & Mourão 2008), PARNA da Serra da Canastra (Shaw et al. 1985, Oliveira 2010), PE do Rio Preto (Lessa et al. 2008), RPPN Reserva do Jacob (Medri & Mourão 2008), RPPN Galheiros (Medri & Mourão 2008), ESEC do Panga (Bruna et al. 2010), ESEC de Pirapitinga (Medri & Mourão 2008); PE Veredas do Peruaçu (Ferreira et al. 2011) em Minas Gerais; PARNA das Nascentes do rio Parnaíba (Medri & Mourão 2008) entre Piauí e Maranhão; PARNA de Pacaás Novos (Medri & Mourão 2008) e FLONA do Jamari (Koester et al. 2008) em Rondônia; PARNA da Serra da Capivara (Olmos 1995, Perez 2008), PARNA da Serra das Confusões (Henrique et al. 2007); ESEC de Uruçuí-Una (Zimbres 2010) no Piauí; APA de Corumbataí, Botucatu e Tejupá (Alves 2009), ESEC de Angatuba (Medri & Mourão 2008), ESEC de Jataí (K.F.M. Silva, dados não publicados), ESEC de Paranapanema (Medri & Mourão 2008), Floresta Estadual de Cajuru (chefe da unidade, comunicação pessoal) e PE do Morro do Diabo (Faria & Moreni 2000) em São Paulo; PE do Cerrado (Vidolin & Braga 2004), APA da Escarpa Devoniana (Braga 2010), PARNA do Iguaçu, PARNA de Ilha Grande e PE do Guartelá (Medri & Mourão 2008) no Paraná. Áreas protegidas com confirmação de extinção local do táxon: Parque Estadual Vila Velha - PR (F.G. Braga, dados não publicados) e REBIO de Sooretama - ES (A. G Chiarello, dados não publicados).

Plano de Ação

O Plano de Conservação para Myrmecophaga tridactyla no Paraná propõe, além de outras medidas, assegurar que a análise, licenciamento e aprovação de empreendimentos econômicos desenvolvidos nas áreas de ocorrência atual da espécie contemplem medidas mitigadoras e compensatórias que gerem benefícios à sua conservação; e a avaliação do controle químico de formigas em áreas cultivadas e seu impacto sobre a espécie (Braga 2009). O tamanduá-bandeira está presente no Anexo II da "Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora" - CITES (2011). 


Referências

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Fonte das Informações

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Fonte das informações nomenclaturais e de distribuição por UF. Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil. Disponível em: <http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/>

Mais Informações

Enfermidades: para o Pantanal Sul Mato-grossense foram coletados 309 ectoparasitas em 12 tamanduás-bandeiras, sendo a espécie mais freqüente, o carrapato Amblyomma cajennense, seguido deAmblyomma parvum (Medri 2002). Já no Pantanal Norte, foram encontrados Amblyomma cajennense, Amblyomma dubitatum, Amblyomma nodosum, Amblyommana ponense eAmblyomma parvum parasitando essa espécie (Miranda 2008). No estado do Paraná, Braga (2010) encontrou apenas Amblyomma calcaratum parasitando tamanduás-bandeira, reforçando o constatado por Arzua et al. (2005). Miranda (2008) ao levantar as enfermidades de tamanduás bandeira em vida livre de três diferentes áreas: Parque Nacional das Emas, Parque Nacional da Serra da Canastra e Pantanal Matogrossense, encontrou indivíduos soropositivos para Brucella abortus, Leptospira, Sorovar butembo, Australis, Icterohaemorrhagiae, Bataviae, Autumnalis, Shermani e Fortbragg. 


As informações das espécies são provenientes da Flora do Brasil 2020 em construção e do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil.

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